Um enigma chamado povo brasileiro

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Por Bepe Damasco, em seu blog:                                                                                                           

Atônito com a desgraça que se abate sobre o Brasil, tenho perdido o sono buscando explicações para a passividade com que a imensa maioria do povo brasileiro vem assistindo a retirada de seus direitos; bem como vira a banda do golpe passar sem esboçar reação.

Mais grave, em uma espécie de sadomasoquismo coletivo, votou nas eleições municipais em quem lhe rouba a saúde, a educação, entrega as riquezas do petróleo, vai impedi-lo de se aposentar, mira no seu 13º, nas suas férias e quer que ele trabalhe 60 horas semanais.

Sabemos que o obra mais sofisticada do capitalismo é a quantidade de pobres de direita que consegue produzir. Mas no Brasil, a julgar pelos resultados do último dia 2, impressiona o número de pessoas que foi às urnas votar nos seus algozes e punir os que lutam por seus direitos.

Abro parênteses : só uma sociedade muito doente pode trocar um homem público da envergadura de Fernando Haddad por um almofadinha metido a besta como Dória, cuja trajetória e convicções lembram o personagem Justo Veríssimo, do genial Chico Anísio. Imaginar que a pobreza paulistana votou em peso em Dória provoca engulhos estomacais. Fecho parênteses.

Não é preciso ser especialista em psicologia de massas para enxergar com nitidez um fator que contribuiu fortemente para o quadro atual de atrofia cívica e de afirmação de valores antissociais, antidemocráticos e totalitários : o bombardeio diário incessante dos meios de comunicação, criminalizando o PT e a esquerda e desmoralizando preceitos democráticos e republicanos fundamentais inscritos na Constituição cidadã de 1988.

Assim, bem-estar social se transforma em gasto público desnecessário. Causas e projetos coletivos viram coisa de esquerdista. O que vale é a meritocracia. Vencer na vida passa a ser um desafio individual. Pouco importa se, na largada, um parta da miséria de uma palafita e outro da Vieira Souto, no Rio, ou dos Jardins, em São Paulo.

O desencanto com os erros do PT pode ajudar também a entender o fenômeno, mas só em parte. O rolo compressor golpista e autoritário, liderado pelo monopólio da mídia e integrado por instituições apodrecidas do Estado, tais como Judiciário (incluindo STF), Ministério Público, Policial Federal, Congresso Nacional e Tribunal de Contas da União, logrou colar na testa do PT o emblema da corrupção. Isso é fato.

Mas é um exagero apontar o voto contra a corrupção como a causa principal do desastre eleitoral petista. O desencanto generalizado com a política e os políticos parece ter sido a força propulsora dessa eleição. Haja vista o recorde de votos brancos, nulos e abstenções. Vejo como frágil a análise segundo a qual o pleito se assemelhou a uma jornada cívica contra a corrupção. Fosse assim, partidos campeões em corrupção, como PSDB e PMDB, não emergiriam como os grandes vitoriosos.

Dia desses conversava com um grupo de pessoas próximas. Entre nós, ainda bem, sobravam dúvidas e faltavam certezas sobre como entender o momento atual. Mas não custa avançar na reflexão. É possível que a apatia popular atual só vá passar quando os pobres começarem a sentir na pele os efeitos do assalto a seus direitos. Afinal, como diz o meu amigo Val Carvalho, uma das melhores cabeças políticas que conheci na vida, só gado aceita ir para o matadouro sem reação O problema, lembra esse bravo sergipano, é que não dá para determinar quando isso irá ocorrer.

Para embaralhar ainda mais as cartas desse jogo, todas as pesquisas mostram uma forte rejeição a Temer. Vá entender: rejeitam o golpista, mas votam em peso nos partidos que o apoiam. Esses levantamentos mostram ainda que os brasileiros e brasileiras reprovam todas as medidas do governo usurpador. Reprovam, mas não se mexem. É duro!

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